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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Wolverine : A história de sua criação

                             
Bichinho interessante esse tal de carcaju... Habitante típico de florestas geladas do Hemisfério Norte, esse pequenino mamífero onívoro (ele mede entre setenta e cento e dez centímetros) vive da caça de pequenos animais, porém quando a comida é escassa ou então quando é atacado, o carcaju não se furta a demonstrar uma agressividade e violência raras no Mundo Animal. Resumindo: caso algum dia algum de nós fique perdido em alguma floresta
subpolar é melhor rezarmos para não nos depararmos com um carcaju faminto e enraivecido.



Primeiros esboços de Wolverine,
por John Romita Sr.

Todavia, aqui não é um sítio eletrônico dedicado a Zoologia, e sim a quadrinhos e cultura pop, e estamos falando do carcaju apenas por que esse “simpático” animalzinho serviu de inspiração para a criação de um dos maiores e mais famosos heróis da Marvel Comics, herói esse que terá a suas origens esmiuçadas aqui. Ah, falamos como é nome em inglês do carcaju? Não? Em inglês o carcaju é chamado de Wolverine! Por favor, nos acompanhem...


UM SUPER-HERÓI CANADENSENossa história começa em 1974, ano em que Roy Thomas exercia o cargo de editor-chefe da Marvel Comics. Um belo dia, olhando o gráfico de vendas, Thomas percebeu que as revistas da Marvel estavam obtendo um sucesso expressivo no Canadá, o que o levou à óbvia conclusão de que um super-herói canadense talvez incrementasse ainda mais a vendagem de gibis da Casa das Ideias no país vizinho. Ideia vai, ideia vem, o então editor-chefe da Marvel entendeu que o novo herói deveria ser inspirado em algum animal típico do Canadá, e isso o levou a dois possíveis nomes para o personagem: Badger (texugo, em português) e Wolverine. Entre essas duas opções Thomas escolheu o nome Wolverine e decidiu que tal qual o seu correspondente animal, o novo herói deveria ser pequenino e ter temperamento explosivo. Decididos os principais parâmetros sobre os quais o herói canadense seria criado, Thomas procurou o escritor e editor Len Wein e simplesmente disse para ele: “Eu quero que você crie um sotaque canadense. Eu quero que você crie um personagem canadense. E eu já tenho um nome para ele: Wolverine. Vamos lá!”. No mínimo a nossa audiência está se perguntando: por que Wein foi escolhido por Thomas para criar o Wolverine? Tudo tem a ver com sotaque...



Hulk #180: primeira aparição de
Wolverine. Arte de Trimpe.



Apesar de jovem, naquele período, Wein já havia acumulado bastante experiência profissional escrevendo roteiros das mais diferentes temáticas possíveis tanto para a Marvel quanto para a DC Comics, e um dos seus pontos fortes como roteirista era a habilidade em “escrever sotaques” ou, melhor explicando, a sua notável aptidão para criar ou desenvolver personagens estrangeiros, aptidão essa que foi demonstrada em seu trabalho como roteirista das aventuras do Irmão Vodu (Brother Voodoo), um super-herói místico oriundo do Haiti. Na visão de Thomas, essas qualidades tornavam Wein mais do que perfeito para a criação do novo herói canadense, e assim que recebeu essa tarefa, o escritor iniciou as pesquisas para dar conta dela. Nessas pesquisas ele levantou todas as características dos carcajus que citamos no começo desse artigo, e após isso ele procurou John Romita Sr. – então editor de arte da Marvel – e em parceria com o veterano artista ele concebeu o visual de Wolverine, visual esse que tinha diferenças marcantes em relação ao que o canadense apresenta hoje: a fim de ressaltar os “aspectos animalescos” do herói, a sua máscara trazia “simpáticos bigodes” e a região dos olhos e orelhas apresentavam longos contornos negros.

Hulk #181: Wolverine contra o Hulk.

Esboçado o visual, faltava definir as demais características do novo herói, e como os dois idiomas oficiais do Canadá são o Inglês e o Francês, Wein considerou seriamente a possibilidade de Wolverine ser franco-canadense! Conseguem imaginar o baixinho mais invocado dos quadrinhos falando com sotaque afrancesado? Graças a Deus essa ideia foi descartada e no final de tudo Wein definiu que o personagem teria as seguintes características: assim como a sua contraparte do reino animal, Wolverine teria baixa estatura e seria raivoso e impetuoso; ele seria um mutante com superforça, sentidos e agilidade proporcionais aos de um carcaju; suas principais armas seriam garras de adamantium (um fictício e indestrutível metal artificial do Universo Marvel), que estariam embutidas em luvas feitas de um tecido baseado no mesmo metal e ele teria algo em torno dos dezenove ou vinte anos de idade.

Hã, um momento... Wolverine com superforça? Garras embutidas nas luvas? E com vinte anos de idade? Esse Wolverine é um pouco diferente daquele que conhecemos nos dias de hoje, não acham? No devido momento iremos explicar as diferenças entre o Wolverine dos primeiros dias e o Wolverine dos dias de hoje, só que antes precisamos contar aqui como foi a estreia do baixinho canadense. Querem saber um pouco mais sobre isso? Então continuem lendo esse artigo, ora bolas!


X-Men #98: primeira aparição
de Wolverine sem a máscara.
Arte de Cockrum.




A Primeira ApariçãoEm meados de 1974 chegou nas bancas americanas o gibi Incredible Hulk #180, que trazia a história And the wind howls... Wendigo (E o vento uiva... Wendigo), escrita por Len Wein e desenhada por Herb Trimpe e Jack Abel. Nessa aventura, em uma de suas eternas andanças em busca de paz, o Hulk acabou chegando nas vastas florestas do norte do Canadá, e não demorou muito para ele arrumar confusão, já que ele se viu frente a frente com o Wendigo, uma monstruosa e poderosa criatura canibal que habita essas florestas. Assim que tomou conhecimento da presença do Gigante Verde em território canadense, as Forças Armadas locais decidiram enviar um de seus agentes para executar o Hulk ou pelo menos expulsá-lo do Canadá, e não havia ninguém mais bem talhado para a tarefa que o Arma X(Weapon X). E justamente na última página e no último quadro da história, com o “couro comendo” entre o Hulk e Wendigo, o Arma X surgiu em cena, encarando os dois monstros e se apresentando a eles pelo nome pelo qual preferia ser chamado... Wolverine!



X-Men #98: Wolverine é de fato
um mutante? Arte de Cockrum.


“Você exigiu! E a Marvel o fez! Vindo dos mais distantes rincões do Canadá surge o temível e mortífero Wolverine! Mas ele é um herói – ou seria mais um novo e perigoso supervilão?” Dramáticas essas últimas frases, não é mesmo? Pois elas fazem parte do anúncio publicado em vários gibis da Marvel visando divulgar o novo personagem da editora e “esquentando o clima” para o gibi Incredible Hulk #181, que trazia a continuação de And the wind howls... Wendigo, batizada com um simples e sugestivo título:And now... The Wolverine (E agora... O Wolverine). Naturalmente, essa continuação foi constituída basicamente por um grande quebra-pau generalizado envolvendo o baixinho canadense, o Hulk e Wendigo, quebra-pau esse que no final acabou sendo vencido pelo Gigante Verde. Ah, antes que nos esqueçamos: essa histórica luta foi publicada pela última vez no Brasil em Wolverine #100, da Editora Abril, em 2000.

Talvez para a visão dos leitores de hoje essa aventura em duas partes seja ingênua e até mesmo mal-desenhada, porém ela cumpriu bem o seu objetivo, que foi apresentar aos fãs um personagem de pavio curto e até mesmo matreiro, já que durante um determinado momento da luta, Wolverine chegou até mesmo a enganar o Hulk, fazendo-se passar por amigo do “Verdão”... Mas, como essa foi apenas a primeira aparição de um novo herói, Wein não se preocupou em apresentar na história todos os detalhes que ele havia bolado para o personagem. Na opinião do roteirista existiriam outras oportunidades para mostrar melhor o jovem mutante canadense que vestia luvas de adamantium. E elas não demoraram a surgir, já que uma certa equipe mutante estava prestes a ser completamente reformulada.

UMA EQUIPE INTERNACIONAL


Giant-Size X-Men #1, a estreia
de Wolverine nos X-men.




Os fãs mais novos talvez não saibam disso, mas nos anos sessenta e início dos setenta os X-Men eram uma espécie de “patinho feio” do Universo Marvel, já que mesmo tendo contado com talentos como Stan Lee, Jack Kirby, Werner Roth, Arnold Drake, Jim Steranko, Neal Adams e Roy Thomas, eles nunca tiveram por parte do público o mesmo carinho e sucesso que os demais personagens da Marvel. Tudo isso fez que no final de 1970 a produção de aventuras inéditas dos pupilos do Professor Xavier fosse suspensa e o gibi X-Men trouxesse apenas republicações de histórias antigas. Roy Thomas não se conformava com isso, e na sua cabeça uma possível reformulação da equipe talvez desse um novo brilho para os mutantes. Ora, se em sua versão original os X-Men eram adolescentes americanos, não seria interessante se uma nova versão do time fosse, por exemplo, uma equipe internacional, composta por membros oriundos dos mais diversos países e etnias? E, por acaso, uma equipe internacional não seria um ótimo chamariz para chamar a atenção do publico estrangeiro para os gibis da Marvel? Era justamente nisso que Thomas acreditava! Todos os editores e roteiristas da Marvel tinham conhecimento desses planos de Thomas, e por saber que os X-Men estavam prestes a ser revitalizados foi que Len Wein definiu que Wolverine seria um jovem mutante na casa dos vinte anos, já que uma das premissas que norteavam a série era o fato dela ser ambientada em uma escola onde o Professor Xavier treinava mutantes imberbes para combater forças malignas. Para Wein era tudo muito óbvio: se algum dia Thomas quisesse uma equipe de heróis estrangeiros, ele já teria uma opção canadense disponível para compor o time. Porém, Wein não contava com uma coisinha: no final de tudo ele foi encarregado de reformular os X-Men!




Os novos X-men substituíram os originais. Vindo de cada canto do Mundo, o caminho do sucesso estava traçado.





Wolverine e Ciclope sempre brigavam. Por
John Byrne.



Rapidamente Wein juntou forças ao desenhista Dave Cockrum, e juntos eles seguiram uma receita simples: pegaram alguns personagens preexistentes – no caso Wolverine, Solaris (Sunfire), Banshee e Ciclope (Cyclops) – e os juntaram a novos heróis criados a partir de esboços de Cockrum – Tempestade(Storm), Colossus, Noturno (Nightcrawler) e Pássaro Trovejante (Thunderbird). O resultado do esforço dos dois foi a aventura Second Genesis (Segunda Gênese), publicada em meados de 1975 no gibi Giant-Size X-Men #1 (no Brasil em Superaventuras Marvel #16 e X-Men Classic #1, ambas da Editora Abril). Apesar dessa HQ hoje ser considerada um clássico dos quadrinhos americanos e sua trama praticamente ser de conhecimento de todos os fãs, vamos reprisá-la rapidamente: os antigos X-Men foram sequestrados por uma entidade mutante chamada Krakoa – a Ilha Viva, e diante desse problema o Professor X se viu obrigado a viajar pelo mundo recrutando novos alunos com o propósito de resgatar seus antigos pupilos. O recrutamento de Wolverine foi extremamente fácil: o baixinho estava de saco cheio de fazer o trabalho sujo das Forças Armadas e dos Serviços Secretos canadenses e rapidamente aceitou a proposta do Professor X de se tornar na prática um agente independente.




Um "erro" de Gil Kane ao desenhar a máscara

de Wolverine fez que o visual melhorasse muito.

Acabou sendo adotado e

é mantido ate hoje.

Nessa época os leitores mais atentos e que conheciam Wolverine do gibi Incredible Hulk devem ter percebido que a máscara do herói canadense em Giant-Size X-Men #1 estava diferente daquela mostrada em sua primeira aparição. Existe uma palavra técnica que define bem essa mudança: erro! Como assim, erro? Vamos explicar... Durante um bom tempo, o genial desenhista Gil Kane foi um dos responsáveis pelas capas dos grandes lançamentos da Marvel, e quando ele fez os esboços da capa deGiant-Size X-Men #1, ele esboçou de maneira equivocada o personagem, esquecendo-se de desenhar os “bigodes” e alongando em demasia os contornos negros da máscara. Assim que recebeu a capa para finalizá-la, Cockrum percebeu isso, mas ele concluiu que o “erro” de Kane dava ao Wolverine um aspecto bem melhor. Resultado final desse “erro”: Cockrum gostou tanto do visual “errado” de Kane que ele o manteve na capa e o reproduziu em Second Genesis. Porém, não pensem que a máscara foi a única coisa que mudou para o baixinho canadense assim que ele entrou para os X-Men. Muito do que Len Wein tinha originalmente definido para o herói rapidamente caiu em desuso...

ESTRANHO CORTE DE CABELOOs novos X-Men criados por Len Wein e Dave Cockrum tiveram uma boa acolhida do público, e a partir de X-Men #94 a série passou a trazer aventuras inéditas dos novos discípulos do Professor Xavier. Entretanto, os roteiros dessas aventuras não eram mais de autoria de Wein: cansado da burocracia do cargo, Roy Thomas abandonou a função de editor-chefe, e sobrou para Wein a “bucha” de substituí-lo. As responsabilidades do novo cargo obrigaram Wein a deixar de lado diversos trabalhos de roteirista que ele tocava, e o novo encarregado das histórias da equipe mutante passou a ser o jovem Chris Claremont (um assistente editorial em início de carreira, que vivia pedindo aos seus superiores oportunidades para escrever) que, ao lado de Cockrum deu continuidade ao projeto de desenvolver uma equipe internacional de heróis da Marvel. E de desenvolver os personagens pertencentes a essa equipe, é claro.



A verdadeira face de Wolverine foi criada por David Cockrum. Arte de John Byrne



Devido ao seu enorme talento e a imensa facilidade com que bolava uniformes de super-heróis, Cockrum tinha carta branca para desenhar os mutantes da maneira que bem entendesse. Sendo assim, coube a ele ser o primeiro artista a retratar Wolverine sem máscara, fato esse que ocorreu no gibi X-Men #98, que trazia a aventura Merry Christmas, X-Men (Feliz Natal, X-Men, publicada no Brasil pela última vez em X-Men - Edição Histórica #1, em 2001, pela Mythos Editora). A “cara” que Cockrum deu ao baixinho canadense era no mínimo bem distinta daquela que a maioria dos super-heróis exibia: ele aparentava ter algo em torno dos trinta e cinco e quarenta anos de idade; a sua face apresentava destacadas suíças; seus cabelos negros eram levantados/arrepiados nas laterais da cabeça e seus trajes civis eram típicos de um caubói do asfalto. Aí, nossa estimada audiência perguntará: de onde Cockrum tirou a ideia para o visual civil do herói? A explicação é longa, e iremos começá-la pelo estranho corte de cabelo de Wolverine, só que para isso precisamos ir rapidinho para o ano de 1973, ou, melhor, para o século XXX.


Os personagens que inspiraram
a aparência de Wolverine. Arte de Cockrum.


Em 1973, Cockrum desenhava as aventuras da Legião dos Super-Heróis (Legion of Super-Heroes) para a DC Comics, e nesse trabalho ele modernizou o visual da superequipe do século XXX, dando para boa parte dos seus membros novos e vistosos uniformes. Um dos personagens modificados pelo desenhista foi Lobo Cinzento (Timber Wolf) – um herói com poderes lupinos –, e para ele Cockrum deu olhos crispados e um corte de cabelo semelhante àquele que posteriormente Wolverine apresentaria. Mas vocês acham que Lobo Cinzento foi a única inspiração visual para o canadense? Não, ainda tem mais...

Um dos passatempos de Cockrum era andar para cima e para baixo com um caderno e rascunhar super-heróis, heróis esses quase sempre advindos de sua prodigiosa imaginação. Um dos esboços do desenhista era uma heroína felina que ele apelidou de Black Cat, que por uma incrível “coincidência” também tinha um corte de cabelo praticamente igual ao de Wolverine. Curiosamente, apesar das semelhanças da Black Cat com o herói canadense, no final de tudo o visual dessa inédita heroína acabou sendo uma das inspirações e modelos para a criação de Tempestade, a nova x-man dotada de poderes climáticos. Mas não pensem que as coisas pararam no Lobo Cinzento e na Black Cat...

Outro esboço de Cockrum era uma equipe de vilões batizada de Devastators (os Devastadores), e ele chegou a oferecê-los para a DC Comics, sugerindo que eles poderiam ser eventuais inimigos da Legião. Entre os vilões desenhados pelo artista havia um com aparência semelhante a de um lobisomem, que Cockrum provisoriamente batizou com o nome de... Wolverine! Os editores da DC Comics acharam os desenhos simpáticos, mas não mostraram muito interesse na oferta do desenhista, e no início de 1974 – já trabalhando para a Marvel – Cockrum mostrou os esboços para Roy Thomas, explicando o conceito por trás de cada uma de suas criações. No caso do seu Wolverine, o artista falou que basicamente ele era um sujeito sujo e violento... Hum, esse cara é parecido com o Wolverine da Marvel, não é mesmo? Pois é... Em depoimento registrado no livro X-Men Companion (inédito no Brasil), Cockrum fala que não considera o Wolverine da Marvel uma criação sua e que provavelmente Thomas esqueceu-se da conversa que tiveram, porém ele não esconde que ficou um tanto quanto ressentido quando o personagem foi lançado. Por outro lado, apesar de ter definido os parâmetros originais do super-herói canadense, Thomas também não se considera criador dele, e sempre que pode ele confere para Len Wein e Herb Trimpe os principais méritos pela criação do Wolverine. Dito tudo isso, e após tantas explanações sobre a origem do corte de cabelo do nosso herói, vamos continuar a explorar as razões que o levaram a ter a aparência que nós conhecemos, sendo que nesse ínterim revelaremos para a nossa audiência um segredo guardado a sete chaves: a verdadeira origem secreta de Wolverine!

A VERDADEIRA ORIGEM SECRETA


As veste civis de Wolverine
são tipicas de cowboy.


Len Wein havia imaginado Wolverine como um garotão na flor da idade. Então, por que de repente, em X-Men #98, ele apareceu mais velho? A razão para isso é absolutamente prosaica: Wein simplesmente não se lembrou de informar Cockrum que o personagem foi concebido como um jovem! Ora, sem ter essa informação, o desenhista achou que o personagem teria uma aparência mais interessante justamente se tivesse uma cara mais “curtida” pelo tempo, e além do rosto mais velho, Cockrum fez com que, sem o uniforme, Wolverine vestisse chapéu e roupas de caubói porque achou que esse tipo de vestimenta combinava bem o jeitão rústico do personagem, isso sem falar que esse tipo de vestuário era absolutamente comum em algumas regiões do Canadá.

Nas cabeças de Claremont e Cockrum, a ideia de as garras de adamantium do baixinho canadense saírem de suas luvas não era interessante... Ora, se as garras saíam das luvas, qualquer fulano poderia ser um Wolverine! Isso fez com que ambos definissem que as garras de Wolverine estavam embutidas no antebraço do herói, e aí, a nossa audiência sabe como são as coisas... Uma ideia puxa outras. Ora, se as garras de adamantium estavam dentro do corpo de Wolverine, por que não fazer com que os todos os seus ossos fossem revestidos com o mesmo metal? Se todo o esqueleto do cara está revestido de metal, por que não atribuir a ele um fator de cura, algo que certamente o impediria de morrer contaminado pelo adamantium? E para que ter superforça, se na equipe mutante Colossus já fazia o papel de fortão? E, finalmente, por que não insinuar para os leitores uma origem supimpa para um herói supimpa? Aí entra um dos pontos mais obscuros da história do personagem...

Em Arma X, a origem do adamantium em
seus ossos.


Durante muito e muito tempo, a origem de Wolverine foi um dos maiores mistérios dos quadrinhos americanos. Desde a estreia do personagem, pistas sobre sua origem – algumas falsas, outras verdadeiras – foram “gentilmente” concedidas a esses fãs e para efeitos, digamos assim, “canônicos”, duas aventuras são consideradas primordiais para entender esse imbróglio: a primeira é Arma X(Weapon X), trama em treze partes de autoria de Barry Windsor-Smith, publicada originalmente em 1991 entre as septuagésima-segunda e octogésima-quarta edições de Marvel Comics Presents (e no Brasil pela última vez na edição encadernada Arma X, em 2003, pela Panini) e que mostra como Wolverine foi sequestrado por uma agência governamental secreta que, a fim de criar o operativo militar perfeito, injetou adamantium no mutante. A segunda é a minissérie em seis edições Origem (Wolverine the Origin), escrita por Paul Jenkins, Joe Quesada e Bill Jemas e desenhada por Andy Kubert. Lançada nos EUA no final de 2001 (no Brasil em três edições pela Panini, em 2002, posteriormente encadernadas),Origem mostrou de maneira detalhada a infância e juventude do herói, e revelou que ele nasceu em uma abastada família canadense cerca de cento e vinte anos atrás (ele vive até hoje graças ao seu fator de cura), e que infelizmente o surgimento dos seus dons mutantes o levou a ter uma vida trágica. Tudo bem... Provavelmente a maior parte da nossa audiência leu essas duas séries fechadas, e deve estar se perguntando: que diabos é essa tal de origem secreta do Wolverine? Vamos falar de novo do gibi X-Men #98...



O passado do baixinho é finalmente revelado, depois de mais de 20 anos de sua criação


Na aventura Merry Christmas, X-Men, a equipe foi atacada pelos Sentinelas (robôs criados com o objetivo específico de caçar mutantes), e na luta que se seguiu, Wolverine é capturado. Levado à presença do Steven Lang – o cientista que comandava os robôs – o baixinho foi submetido a diversos testes, que indicaram que talvez ele não fosse mutante! Não estão entendendo nada? Ora, quando criou o personagem, Wein o definiu como um mutante, mas deixou em aberto a possibilidade dele ser um mutante, digamos assim, diferente... De repente, Wolverine poderia ser na verdade um carcaju superevoluído que atingiu uma forma muito próxima à humana! Bizarro, não acham? Claremont e Cockrum tinham conhecimento dessa ideia inicial de Wein para Wolverine e decidiram insinuá-la nessa história, e havia planos para vincular o herói ao Alto Evolucionário (High Evolutionary), um vilão da Marvel conhecido justamente por superevoluir animais. As coisas só não foram adiante por uma razão: Stan Lee! Mas que diabos o criador da Marvel tem a ver com isso?

Naquela época, o corpo editorial da Marvel fazia planos para lançar a Mulher-Aranha (Spider-Woman), e entre as ideias para a personagem que foram postas na mesa havia a opção dela ser uma aranha evoluída à forma humana. Stan Lee considerou essa ideia despropositada e de difícil assimilação para os leitores, e a vetou de maneira veemente. Ora, assim que tomaram conhecimento da posição do “chefe” sobre animais superdesenvolvidos Claremont e Cockrum decidiram deixar de lado o “Wolverine-carcaju-evoluído” e optaram pela abordagem “homem-de- origem-e-passado-misteriosos”, que durante muito e muito tempo prevaleceu, até ser derrubada pelas minisséries Arma X e Origem.



Wolverine não era querido nem por Claremont, nem
por Cockrum. Seria descartado se não fosse por Byrne. Aqui
Ataca Punho de Ferro.

Depois de nossas explicações sobre a aparência e a origem do Wolverine, a nossa mui estimada audiência deve acreditar que Claremont e Cockrum tinham verdadeira adoração pelo baixinho canadense, não é mesmo? Errado! Na verdade, Cockrum não escondia de ninguém que o x-man favorito dele era Noturno, e Claremont tinha clara preferência pelas personagens femininas da equipe. Nessas condições, sobrou para o nosso herói um papel um tanto quanto insólito: ser o eventual alívio cômico nas aventuras dos X-Men. Esse Wolverine “bem-humorado” se revelava das mais diversas formas: ora era nas piadinhas que ele sempre fazia, ora era na sua “paixonite” pela heroína Jean Grey (conhecida na época como Fênix); ora era pelo seu pavio curto, que sempre o fazia desafiar os seus colegas de equipe – em especial Ciclope, o líder da equipe – e ora era atacando os adversários de maneira destrambelhada e muitas vezes se dando mal. O cúmulo do Wolverine “cômico” ocorreu na aventura Enter: X-Men, publicada no gibi Iron Fist #15 (no Brasil em Incrível Hulk #40, Editora Abril), escrita por Claremont e desenhada por John Byrne. Nessa história, Wolverine pensou que o apartamento da sua “musa” Jean Grey estava sendo invadido pelo super-herói marcial Punho de Ferro (Iron Fist), isso levou o baixinho canadense a enfrentá-lo, e não demorou muito para todos os X-Men serem arrastados para esse mal-entendido, que a duras penas foi desfeito.



"Adotado" por John Byrne, Wolverine
deixou de ser uma piada e se tornou o
melhor naquilo que faz.

O Wolverine “bem-humorado” era interessante e tinha a sua cota de fãs, entretanto o personagem estava longe de ser uma unanimidade. Mas a situação estava prestes a se modificar, e um dos responsáveis por essa mudança seria justamente o artista que desenhou a briga do baixinho canadense com o Punho de Ferro, o tal de John Byrne.

ABRAÇANDO-SE NA BANDEIRA DO CANADÁO trabalho de Dave Cockrum à frente da equipe mutante era venerado pelos leitores, porém dificuldades em cumprir prazos fizeram com que a partir de X-Men #108 ele fosse substituído por John Byrne. Nascido na Inglaterra e criado no Canadá, Byrne vinha chamando a atenção dos fãs nos gibis Marvel Team-Up eIron Fist (em parceria com Chris Claremont), e tal fato, aliado ao seu belo traço realista e cheio de ação, o faziam um substituto mais do que adequado para Cockrum. Logo no início desse novo trabalho, Byrne se encontrou com Claremont para saber quais eram os planos do escritor para o título, e no meio desse bate-papo o desenhista escutou dele algumas coisas que hoje soariam surpreendentes: Claremont disse para Byrne que simplesmente não sabia o que fazer com Wolverine, e que estava pensando em tirá-lo dos X-Men!

A reação de Byrne ao desejo de Claremont de “expulsar” o Wolverine dos X-Men foi rápida: cheio de patriotismo e quase se abraçando na bandeira do Canadá, o artista disse a Claremont que era um absurdo ele querer tirar o único membro canadense da equipe mutante logo agora, quando o título passava a ser desenhado por um artista canadense! Após essa conversa, Claremont prometeu que iria rever as suas concepções em relação ao personagem e Byrne deu início a um “sinistro plano secreto” que mudaria para sempre os X-Men...




X-Men #116: A primeira morte
de Wolverine. Arte de Byrne.

Além de desenhar, Byrne era ótimo com roteiros, e não demorou muito para ele tornar-se o co-roterista do título. Uma das consequências disso foi que Byrne tomou Wolverine como o seu favorito do grupo e fez com que lentamente as fanfarronices e o bom-humor do canadense ficassem em segundo plano e ele passasse a ser retratado de uma forma mais soturna, séria e principalmente mais destacada nas aventuras dos X-Men. Isso ficou muito claro na aventura To save the Savage Land (Para salvar a Terra Selvagem), publicada originalmente em X-Men #116 (no Brasil pela última vez na coletânea X-Men - Edição Histórica #1, da Mythos Editora): nessa história, a equipe mutante está na Terra Selvagem (uma região na Antártida que preserva características pré-históricas) enfrentando o semideus Garokk e seus asseclas, e em um determinado momento, Wolverine, Tempestade e Noturno precisam invadir a base do vilão, porém a única entrada do local está sendo vigiada por um dos soldados do semideus. Sem muito lero-lero, o herói baixinho furtivamente se aproximou do soldado e... executou-o a sangue-frio...

Para os padrões atuais dos quadrinhos, esse assassinato cometido por Wolverine não tem nada de mais, é até muito simples e discreto, uma vez que não foi mostrado o herói cravando as garras no servo de Garokk, e nem poderia ser diferente, já que naquela época a Censura não via com bons olhos cenas muito violentas. Todavia, essa cena não deixa de ser um momento histórico, já que essa foi a primeira vez em que Wolverine foi retratado matando alguém!

Mais do que um divisor de águas para o personagem e para os X-Men, de certa forma a “primeira morte” de Wolverine ajudou a abrir um pouquinho mais a porteira para o amadurecimento dos quadrinhos americanos, um processo que começou no início dos anos setenta e cristalizou-se de vez em meados dos anos oitenta. Mas a evolução do personagem não ficou restrita apenas a assassinatos consumados.

DINÂMICA DE CONTRASTEVocês repararam que até o momento não citamos o verdadeiro nome de Wolverine? Pois é, depois que deixou de lado o conceito do “Wolverine-carcaju-evoluído”, Claremont passou a usar a abordagem “homem-de-origem-e-passado-misteriosos”, porém o herói precisava de algum nome, não é mesmo? E se uma namorada viesse de lambuja também não seria nada mal...


X-Men #120: Wolverine revela seu
verdadeiro nome. Arte de Byrne


Em X-Men #118 e X-Men #119 (no Brasil X-Men - Edição Histórica #1, da Mythos Editora e primeiramente em Almanaque do Hulk #9, da RGE) a equipe mutante estava no Japão enfrentando o terrorista Moses Magnum, e no meio desse conflito Wolverine conheceu Mariko Yashida, uma jovem descendente de uma nobre família nipônica e prima de Solaris, um antigo membro da superequipe. Naturalmente, não demorou muito para o baixinho canadense se apaixonar e ser correspondido pela delicada garota. Concebida por Byrne e inspirada em uma personagem homônima do romance histórico Shogun – escrito por James Clavell –, a função de Mariko era criar para o Wolverine uma dinâmica de contraste, já que não havia nada mais diferente de um sujeito tosco vindo dos rincões do Canadá do que uma nobre e educada dama oriunda da sociedade japonesa. Só que o romance entre os dois ficaria muito esquisito se ela o chamasse apenas de Wolverine ou baixinho, não acham? Justamente por isso ao despedir-se de sua amada em X-Men #120, o nosso herói revela que seu verdadeiro nome é Logan. Apenas Logan. E aí nossa querida audiência se perguntará: tem algum significado esse nome? De certa forma, sim.

Situado no na região do Yukon (no nordeste canadense) e tendo quase seis mil metros de altura, oMonte Logan é o pico mais alto do Canadá e um dos mais altos das Américas. Não se sabe se foi por sugestão de Claremont, Byrne ou mesmo de Dave Cockrum (nenhuma das partes envolvidas lembra quem teve a ideia) que o herói recebeu esse nome, mas o propósito dele é muito claro: de maneira irônica o mais baixinho de todos os heróis teria justamente o nome de uma das mais altas montanhas do mundo.



Nem quando foi revelado o verdadeiro nome de Wolverine, Logan caiu em desuso. Arte de Andy Kubert, em Origin.





Mariko é morta por seu amor, o Wolverine.

Nem mesmo o fato da minissérie Origem ter revelado que o verdadeiro nome do personagem era James Howlett fez com que o nome Logan caísse em desuso, e para todos os efeitos, os colegas, adversários e fãs de quadrinhos ainda chamam o baixinho canadense por esse nome. Mariko também chamava o herói de Logan, e entre altos e baixos eles tiveram um longo relacionamento, que terminou com o passamento dela na história Death in Family (Morte em Família), publicada em 1992 na revista Wolverine#57 (no Brasil pela última vez na coletânea Wolverine - Edição Histórica #3, da Mythos Editora), quando o nosso herói já era um dos mais importantes personagens da Marvel Comics. Mas como um personagem que quase foi deixado de lado adquiriu tanta importância e fama?


O MAIS DESTACADO PUPILO DO PROFESSOR XAVIER

O passado de Wolverine começou a ser desvendado na fase quando Byrne começou a co-escrever os X-men. Como ex-agente do Canadá, foi caçado pelo governo. A Tropa Alfa tentou trazê-lo algumas vezes


Lembram-se do “sinistro plano secreto” de John Byrne, que tomou Wolverine como o seu x-man favorito e o fez ter mais destaque nas aventuras da equipe mutante? O apreço do desenhista e co-roteirista pelo herói “conterrâneo” foi demonstrado em várias histórias... Em X-Men #109 (no Brasil em Os Maiores Clássicos da Tropa Alfa #1, Panini) os leitores tiveram contato com o lado mais pessoal do personagem quando o super-herói canadense Vindix (Vindicator) – também conhecido como Arma Alfa – tentou obrigar o seu compatriota a retornar para o Canadá e para seu antigo emprego nas Forças Armadas canadenses; em X-Men #120 e X-Men #121 (também em Os Maiores Clássicos da Tropa Alfa #1, Panini) o governo canadense novamente tentou reintegrar Wolverine aos seus quadros, e para isso enviou aTropa Alfa (Alpha Flight) para capturá-lo, o que levou os X-Men a enfrentarem o supergrupo oriundo do Canadá. Quase todos os alunos do Professor X foram capturados pela organização conhecida como Clube do Inferno (Hellfire Club) em X-Men #132, e coube a Wolverine resgatar seus companheiros em X-Men #133 (no Brasil em Os Maiores Clássicos dos X-Men #4, Panini), deixando um rastro de corpos no meio do caminho; e por fim, em X-Men #139 e X-Men #140 (em terras brasileiras em X-Men – Edição Histórica #3, Mythos Editora) o baixinho fez as pazes com o governo canadense e a Tropa Alfa, e de lambuja se reencontrou com Wendigo.



A cena clássica de Wolverine indo salvar seus companheiros X-men do Clube do Inferno. Depois disto, se firmou como um dos maiores heróis da Casa das Ideias.


O saldo de tanto destaque foi óbvio: de maneira lenta e gradual, Logan se tornou o x-man favorito de todo mundo... Até Chris Claremont passou a gostar dele, tanto que nem o rompimento da parceria com John Byrne em 1981 fez com que o baixinho canadense voltasse para o segundo plano. Muito pelo contrário! Atendendo ao clamor dos fãs, Claremont e a Marvel Comics continuaram a investir no personagem e, em 1982, Logan estrelou uma minissérie em quatro partes desenhada pelo superastro Frank Miller que foi um sucesso de público e critica (e que em maio desse ano será relançada no Brasil pela Panini no especial Eu, Wolverine). E, como sorte pouca é bobagem, o cenário dos quadrinhos americanos em meados dos anos oitenta foi extremamente propício para Wolverine, já que nesse período obras como O Cavaleiro das Trevas e Watchmen colocaram em voga um novo tipo de herói, de moral dúbia e que não tinha pudores em matar.



Wolverine alça voos maiores no cinema. Interpretado por Hugh Jackman, o herói roubou a cena na trilogia X-men, ganhou um filme próprio e colocou o ator entre as estrelas de Hollywood

Em 1988 o baixinho finalmente ganhou uma série mensal somente sua, e na virada para os anos noventa a sua fama cresceu de maneira inversamente proporcional ao seu tamanho. O mais destacado pupilo do Professor Xavier; titular de várias séries mensais; estrela de inúmeras minisséries e graphic novels; personagem de desenhos animados; rostinho estampado em material escolar... O Céu parecia o limite para o Wolverine, e em 2000 a sua fama foi consolidada definitivamente quando o ator e galã australiano Hugh Jackman interpretou-o na trilogia cinematográfica dos X-Men. E pelo visto isso não é o suficiente para Logan, já que esse ano ele é o personagem principal de X-Men Origens: Wolverine, um filme todo dedicado a ele e que prometeu esmiuçar a sua origem para o grande público. Depois de fazer uma participação-relâmpago em X-men: Primeira Classe, Logan vai estrear no próximo ano a sequência de Wolverine, e esta sendo negociado que o herói canadense irá participar também da sequência de X-men: Primeira Classe. Será que quando Len Wein recebeu de Roy Thomas a missão de criar um “sotaque canadense” ele imaginou que a sua criação seria o que é hoje? Achamos que não...

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Como os Super-Heróis Nasceram


Saiba como bandidos e trambiqueiros na época da maior crise econômica que o mundo já viu levaram ao surgimento da essência personificada do bem na cultura popular. E entenda por que nós cultuamos esses personagens até hoje.


Tudo começou  com dois jovens tímidos de Cleveland, nos Estados Unidos. De origem judaica, Jerry Siegel desde moleque era fã de ficção científica. Sua maior aspiração era se tornar escritor. No ensino médio, ele conheceu Joe Shuster, nascido no Canadá, mas criado em solo americano. Além da habilidade de desenhar, Joe tinha um interesse pelo fisiculturismo. A união das paixões de ambos, na hora certa, produziu uma revolução cultural que ecoa até hoje. Em algum ponto de 1935, a dupla foi responsável pela criação do Superman.
E assim nasceu a indústria (ou seria a mitologia?) dos super-heróis. Ou, pelo menos, essa é a versão que os fãs de quadrinhos costumam propagandear. Há, contudo, um lado bem menos romântico acerca dos eventos que deram ao mundo a versão moderna dos deuses e semideuses gregos. E ela envolve gângsteres, trapaceiros do pior tipo e até mesmo pornografia.
É uma grande ironia que os maiores defensores do bem tenham nascido de um meio que a ética era tão dúbia, mas foi assim que aconteceu, naqueles estranhos anos do começo do século 20 nos Estados Unidos.
Dois eventos históricos singulares foram fundamentais para criar o pano de fundo que daria origem à indústria dos quadrinhos. O primeiro deles tem origem em 1920, quando o governo americano instituiu a Lei Seca - proibindo a fabricação, o transporte e a comercialização de qualquer bebida alcoólica nos Estados Unidos.


Action Comics #1, 1938
A revista custava apenas U$ 0,10

A ORIGEM DA MARACUTAIA

O romeno Harry Donenfeld emigrou para os Estados Unidos com os pais em 1898, quando tinha apenas 5 anos. Embora tivesse raízes semelhantes às de Jerry e Joe, sua criação foi completamente diferente. Sai de cena a pacata Cleveland e, em lugar dela, entra a efervescente Nova York.
Criado nas ruas, Donenfeld aprendeu o que era preciso para sobreviver. Tornou-se amigo de gângsteres como Frank Costello, ligado ao tráfico de bebida, e virou sócio de seus irmãos na gráfica da família, a Martin Press, no início da década de 1920. De repente, graças a seus contatos...hum, digamos...pouco convencionais, a empresa decola e fecha grandes contratos para imprimir capas de revistas como a Cosmopolitan. Suspeita-se que Harry passou a usar a companhia para transportar bebida do Canadá junto com papel para a gráfica. Nunca ficou provado, mas a grana de repente começou a sobrar. Em 1923, ele tirou os irmãos do negócios e mudou o nome da empresa para Donny Press.
Variação da capa de Action Comics #1,
arte de Alex Ross
Dali em diante, a coisa prosperou. Harry expandiu, criou sua própria empresa de distribuição de publicações e passou a imprimir suas próprias revistas - a maior parte delas com fotos de mulher pelada e histórias sensuais, impressas em papel vagabundo.
Era um esforço para "legalizar" os negócios e a sobreviver depois que a Lei Seca terminasse. Aconteceu só em 1933, quando o mundo enfrentava o segundo fator determinante para o surgimento dos heróis - a Grande Depressão.
Os Estados Unidos mergulharam na recessão, tornando tudo mais difícil para quem não tivesse uma boa rede de contatos. Um dos que sofreram com a crise foi o major Malcolm Wheeler-Nicholson. Em 1935, ele praticamente inventou o conceito de gibi.
Histórias em quadrinhos já existiam antes disso, claro, mas eram apenas publicadas em tirinhas, nos jornais. Apesar de seu sucesso, ainda havia muitas dúvidas, sobretudo naqueles tempos bicudos, de que alguém comprasse uma publicação que consistisse somente em quadrinhos.
A primeira aparição de Batman aconteceu
na revista Detective Comics 27, em 1939.
Elas começaram a se dissipar, contudo, quando alguns espertinhos passaram a negociar os direitos para reunir tirinhas já publicadas em jornais no formato de revistas, por volta de 1933. Quando o major Wheeler-Nicholson chegou ao mercado, já não tinha mais tirinhas publicadas para negociar. Ele deu o próximo- e fundamental- passo: decidiu  encomendar material inédito para lançar sua própria revista. 
Um dos fornecedores do major era a dupla Siegel e Shuster, que se lançou com o personagem... Henri Duval, o mosqueteiro. Isso em 1935, na mesma época em que eles começaram a pensar no Superman.
A empresa de Donenfeld ajudava Wheeler-Nicholson a distribuir suas revistas, mas, quando  o major se atolou de vez em dívidas, teve de vender a National Allied Publications para seu distribuidor, justamente para pagar a publicação de sua mais nova revista, Detective Comics, que circulou em março de 1937.
Àquela altura, Donenfeld estava tomando uma surra dos críticos por sua por suas indecentes revistinhas de mulher pelada e buscava uma saída para manter o lucro com suas publicações. Era a segunda vez que ele precisava trocar de pele para se manter na praça - primeiro de auxiliar de gângster para pornógrafo e, agora, para editor de quadrinhos. Não que aqueles quadrinhos pudessem aumentar sua reputação. A moda era as histórias de terror e crime, violentas como os tempos pediam, sexy com os leitores queriam.
Batman na bela arte de Jim Lee, atualmente
o personagem mais rentável da indústria

CHEGA O HOMEM DO AMANHÃ

Em 1938, Wheeler-Nicholson já estava completamente fora do negócio, que era conduzido por Donenfeld e seu fiel contador, Jack Liebowitz. Quando a National Allied Publications foi lançar uma nova revista de quadrinhos, mais focada em ação, pediu a Jerry e Joe que propusessem uma história. A imagem icônica do gibi, que chegou ao mercado ao preço de 10 centavos de dólar, era algo nuca visto antes, mas extremamente familiar hoje: um homem muito forte ergue um carro com as próprias mãos, vestido com uma roupa colante azul, um S no peito e uma capa vermelha. Os traços eram de Joe Shuster. É o marco inicial da chamada Era de Ouro dos Quadrinhos.
Harry, contudo, não estava feliz. Ele viu a capa, achou o personagem ridículo e ordenou que o Superman não voltasse a figurar na publicação. Sua reação não foi muito diferente da que tiveram vários outros editores, quando receberam amostras do personagem. O material que figurou na Action Comics 1, inclusive, nada mais era uma colagem de diversas tirinhas antigas, recortadas e coladas na maior cara de pau.
Apesar do trabalho meio desleixado, e da rejeição interna na editora, a revista foi um estouro de vendas. Pela primeira vez, o mundo foi tomado de assalto por um super-herói - e nunca a humanidade havia precisado tanto deles. A ameaça de guerra na Europa e a crise econômica nos Estados Unidos deixavam todo mundo à espera de um salvador. De certa forma, a mensagem messiânica por trás de um personagem aparentemente bobo como Superman era o que todos - sobretudo os jovens - queriam ter por perto.
Logo que vieram os superlativos números das bancas, surgiu o plano de fazer uma revista mensal inteira só com o Superman. Donenfeld, antes crítico, virou principal propagandeador do homem de azul, e Siegel e Shuster assinaram um contrato-padrão, que lhes dava 140 dólares em troca de todos os direitos sobre o personagem. Além disso, teriam por dez anos a exclusividade na produção das histórias do Superman - o que pareceu ótimo naquele momento.

A FEBRE DO SUPER

A trindade da DC, Superman, Mulher-
Maravilha e Batman na arte do brasileiro
Ed Benes. Conhecidos mundialmente.
Não demorou muito para que Superman virasse também tirinha de jornal - produzida por Siegel e Shuster, lá é que surgiu toda a história pregressa do herói: Kal-El, enviado do planeta moribundo Krypton para viver entre humanos, criado por um casal de fazendeiros do Kansas, que preserva sua identidade secreta como o repórter Clark Kent, mas na verdade usa seus poderes para "defender a verdade, a justiça e o modo de vida americano".
Enquanto os gibis vendiam em quantidade astronômica (tiragens superiores a 1 milhão de cópias), outros editores se preparavam para capitalizar em cima da novidade. Um deles foi Charlie Gaines, que ajudou a produzir o gibi exclusivo do Superman. Ele pediu ao próprio Donenfeld uma grana emprestada para abrir sua própria editora de quadrinhos. Harry aceitou com a condição de que Jack Liebowitz fosse sócio do negócio - mantendo tudo "na família", por assim dizer. Surgia a All-American Comics.
Outro potencial concorrente era Martin Goodman, que em 1939 fundaria a Timely Comics. A reputação do editor era a pior possível. Durante anos, ele usou o esquema de falir sua própria empresa e vendê-la a outra, também dele, para não precisar pagar colaboradores. Contudo, com a febre dos quadrinhos e uma revista chamada Marvel Comics, dessa vez a companhia acharia o rumo do sucesso.
Amazing Fantasy # 15
Estréia do Homem-Aranha, criado por
Stan Lee e Steve Ditko
Claro, quem saiu na frente mais uma vez foi quem soube antes de todo mundo do sucesso do Superman. No fim de 1938, Vin Sullivan, empregado de Donenfeld na National Allied Publications, começou a encomendar a outros colaboradores histórias e personagens com a mesma pegada do Homem de Aço. "Vin conversou com várias pessoas, entre elas ( o desenhista) Bob Kane", conta Gerard Jones, pesquisador e ex-roteirista de quadrinhos que escreveu o livro Homens do Amanhã, sobre a origem da indútria dos heróis. "Era uma sexta-feira. Kane disse que voltaria na segunda-feira com um novo herói."
Assim, em um fim de semana, nasceu Batman. Kane o criou em parceria com o roteirista Bill Finger, embora o segundo jamais tenha sido oficialmente creditado e o próprio desenhista só tenha admitido a ajuda após a morte do colega. Kane, assim como quase todos na indústria dos heróis, estava mais para bandido que para mocinho. E então os Estados Unidos entraram na II Guerra Mundial.

REIS DA PROPAGANDA

Em tempos beligerantes, o culto do patriotismo é fundamental. Os super-heróis, com sua clássica, e quase infantil, visão do bem e do mal, serviram muito bem a esse propósito. Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, após o bombardeio japonês a Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, Superman e seus seguidores passaram mais do que nunca a posar em frente à bandeira americana. Nasceu também, naquele mesmo ano, o mais patriota de todos os heróis: o Capitão América.
Capitão América criado em 1941, por Joe Simon e Jack Kirby
o mais patriótico dos heróis, na arte do brasileiro
Mike Deodato Jr
Criado por Joe Simon e Jack Kirby, o personagem foi o grande hit da Timely Comics, de Martin Goodman, que mais tarde seria rebatizada Marvel. Apesar de ter interrompido sua série de calotes aos colaboradores, ele passou a perna na dupla. Prometeu 15% da renda da revista do Capitão América, mas não cumpriu. Revoltados, os dois foram procurar emprego com Jack Liebowitz na rival National - futura DC. Ato contínuo, Goodman decidiu que não precisaria contratar mais ninguém para tocar o Capitão América e suas outras publicações. Promoveu a editor um office boy de 19 anos que nem sequer lia quadrinhos. Seu nome era Stanley Lieber. Para os íntimos, Stan Lee.
X-men é um dos grandes sucesso da Marvel tanto nos quadrinhos
como no cinema. arte de Jonh Byrne, na fase mais famosa dos mutantes.
Enquanto isso, os heróis iam "para o alto e avante". Superman virou um caríssimo desenha animado para cinema ( e foi lá que ele aprendeu a voar - originalmente, o herói só saltava) e também um programa de rádio. O racionamento de papel, em razão da guerra, não afetava a indústria dos quadrinhos, que era vista pelo governo americano como uma importante peça de propaganda contra as forças do Eixo.
Quando a guerra acabou, o que sobrou foi um mundo a reconstruir. Os quadrinhos de heróis passaram a ser menos interessantes diante de um público mais maduro e calejado. Em contrapartida, crescia o movimento de críticos que atribuíam à violência em suas páginas a delinquência juvenil.
Os Vingadores na arte de George Pérez nos anos 80.
Histórias nesta época fizeram enorme sucesso.
Fora do papel, contudo, a popularidade permanecia. Batman era adaptado para curta-metragens em série no cinema, e o programa de rádio do Superman ousava mexer com as entranhas do racismo americano ao ridicularizar a Ku Klux Klan. Em 1946, munidos por um ativista que se infiltrou no grupo, os produtores decidiram colocar o Homem de Aço contra uma organização que atacava minorias. "A história era chamada The Clan of the Fiery Cross. Era disfarçado, mas totalmente óbvio. Eles mostravam o clã atacando minorias, usando capuzes, fazendo coisas altamente realistas para um programa de rádio infantil", diz Rick Bowers, autor do livro Superman Versus the Ku Klux Klan.
A história teve excelente audiência e ajudou a desmoralizar o grupo racista, reduzindo seu recrutamento. Segundo a revista Newsweek, foi "o primeiro programa infantil a desenvolver uma consciência social nos jovens".
O Incrível Hulk,  criado por Stan Lee em 1962.
Personagem complexo para sua época. arte
de Dale Keown.
Contudo, no mundo das páginas impressas, as críticas não passaram. Pior: chegaram ao auge quando o psiquiatra alemão Fredric Wetham publicou o livro Seduction of the Innocent, em 1954, sugerindo que a maior parte dos casos de violência infantil era influenciada pelos quadrinhos. Em setembro daquele ano, como reação da indústria, surgiu a Comics Code Authority - uma forma de autocensura para eliminar os conteúdos mais violentos. De repente, os heróis não podiam nem dar um murro num bandido que já pegava mal.

ERA DE PRATA

Para dar nova vida aos heróis sob os novos códigos de conduta, seria preciso mais uma explosão criativa. Do lado da DC Comics, no fim dos anos 1950, haveria a reconstrução da mitologia de alguns de seus heróis, como o Flash e Lanterna Verde ( com mudanças em sua origem e até mesmo em sua identidade secreta), e a criação da Liga da Justiça. Mas desta vez a Marvel responderia à altura.
Stan Lee começou com o Quarteto Fantástico - criado a pedido de Goodman em 1961 para competir com a Liga da Justiça -, mas em rápida sucessão, até 1963, criou o Hulk, Thor, Homem-Aranha, Homem-de-Ferro, os Vingadores e os X-men. Eram heróis mais complexos, para um mundo menso ingênuo. Isso reacendeu a indústria e colocou pela primeira vez a Marvel em condições de competir com a DC.
Enquanto isso, os heróis invadiram com força total a então nascente televisão. Superman chegou seu seriado em 1952, com uma transição quase natural dos programas de rádio. Pela primeira vez, um ator se identificaria com o papel: George Reeves. Ele interpretou o herói até 1958, mas teve um fim trágico. Suicidou-se no ano seguinte, chocando o mundo e encerrando a produção da série.
Joel Ciclone, o 1º Flash, na Era de Ouro.
Arte de Alex Ross
Na década de 1960, foi a vez de Batman tomar de assalto a TV, com uma série escrachada, divertida e surreal, protagonizada por Adam West, como Batman, e Burt Ward, como Robin. O programa durou três temporadas, entre 1966 e 1968. E na década seguinte, o Homem-Morcego voltaria à TV, mas na forma de desenho animado: em Superamigos, produzido em parceria com a Hanna-Barbera, ele e o Menino-Prodígio fariam parte de um grupo similar ao da Liga da Justiça, que reunia também Superman, Mulher-Maravilha e Aquaman, entre outros.
O fim da década de 1970 viu a Marvel começando a colocar as manguinhas de fora para arrebentar fora dos quadrinhos, com a série de TV do Hulk.

VOOS CINEMATOGRÁFICOS

Em 1975, o mundo ficou sabendo da penúria pela qual passavam os iniciadores de tudo isso, Jerry Siegel e Joe Shuster. Os dois processaram a National para tentar recuperar os direitos sobre o Superman, mas perderam, em 1948. E aí ficaram na rua da amargura. Quando Siegel ficou sabendo que a Warner ia lançar um filme do Superman, com uma superprodução, se revoltou  e escreveu uma carta, divulgando aos quatro ventos como ele e Shuster estavam pobres, enquanto outros ficaram milionários com sua criação.
Barry Allen se tornou o 2º Flash na era de prata.
Nos anos 80 morreu na saga Crises nas Infinitas
Terras e Wally West, o Kid Flash dos Novos Titãs
se tornou o 3º Flash. Mas Barry ressuscitou e
voltou a ser o Flash.
Para abafar o rolo, a Warner, então já fundida com a DC Comics, decide pagar uma pensão vitalícia aos dois. Superman chega aos cinemas e eleva a popularidade dos heróis a um novo patamar. Aquele foi o embrião da febre dos heróis no cinema, que parece atingir seu ápice nos dias de hoje, 4 décadas depois. E é curioso notar que o mundo precisa tanto dos heróis agora como quando eles foram criados. Naquela época, a recessão corria solta e pairava a ameaça de uma guerra. Hoje, a situação não é muito diferente - a maior crise econômica global desde os anos 1930 e o constante medo do terrorismo. Coincidência? 
Nos quadrinhos, com mais de 70 anos de vida, esses personagens seguem se reinventando periodicamente. Em setembro do ano passado, a DC resolveu arrepiar: cancelou todas as revistas e começou tudo de novo, do zero. Uma tentativa de recuperar o espaço perdido e recapturar a imaginação do público. E certamente essa não será a última decisão radical. Há quase um século, esses personagens têm se adaptado às circunstâncias para preservar sua relevância. E há algo tão elementar neles que nos permite dizer que jamais serão esquecidos.
O Quarteto Fantástico inaugurou a Marvel Comics em 1961, antes Timely Comics. Foi criado por Stan Lee e Jack Kirby.
Arte de John Byrne, o artista que produziu as melhores histórias do grupo até hoje.

Ótimo texto de Salvador Nogueira, mostra que os heróis nasceram para gerar lucros para empresários em uma época marcada pelo crime, com figuras que poderiam muito bem estar nas páginas policiais. Que os artistas, aqueles que davam vida aos personagens, que fizeram história, acabaram sendo engolidos e esquecidos pela indústria pois não tinham nem mesmo a proteção da Lei. Infelizmente os heróis que eles criaram ou ajudaram a criar, que salvavam o mundo em todas as edições não foram capazes de salvá-los.

Este texto foi extraído do especial da superinteressante coleções -" Decifrando os Super-Heróis "( Ed. 306-A - Julho/2012).

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Maga, o Mago da Dublagem – Parte 2



Dando continuidade a homenagem a Marcelo Gastaldi nesta última parte vamos relembrar um pouco mais sobre a Maga e outros trabalhos marcantes…
UM POUCO MAIS SOBRE O MAGA
Abaixo um dos primeiros trabalhos de Gastaldi em dublagem no extinto Estúdio AIC (versão brasileira AIC São Paulo), fazendo a voz do filho da família Bud Anderson, interpretado pelo ator Billy Gray na clááássica série Papai Sabe Tudo, um dos primeiros sitcoms dos EUA.
E mais abaixo o Maga dublando o Raposinha num clássico episódio do Pica-Pau. Detalhe: Quem faz a voz do Pica-Pau é o Garcia Jr., dublador do He-Man, quando era era criança.


UM POUCO MAIS SOBRE A MAGA
O Estúdio Maga funcionou aproximadamente entre 1982 e 1995, quando Gastaldi morreu. Como contamos antes ela fazia parte do núcleo de dublagem da TVS (hoje SBT) junto com oEstúdio Elenco. Após o fim do vínculo com Silvio Santos em princípio dos anos 90, a Maga continuou existindo e como não tinha sede própria as gravações eram feitas dentro do Estúdio MashMallow.
É fácil reconhecer isso pois sempre era dito pelo narrador “Gravado nos Estúdios da TVS” e passou a ser “Gravado nos Estúdios da MashMallow”. Senão me engano a última remessa de episódios de Chaves e Chapolin eram dessa fase, o que talvez explique a nítida mudança sofrida na claque (as risadas gravadas) dos programas mexicanos.
A partir daí também emissoras como Bandeirantes e Globo passaram a exibir a dublagem Maga. Infelizmente, este não foi o caso do exemplo abaixo…



CHARLIE BROWN
Observação: Só eu que acho essa imagem acima MUITO engraçada?
Capítulo a parte na história do Estúdio Maga, a dublagem mais clássica de Peanuts no Brasil até hoje é a mais popular entre os fãs de Minduim e sua turma, que ainda lembram de tê-los visto nas exibições dos SBT nos anos 80. Mesmo com a Globo mandando redublar a animação na Herbert Richers – que orientou os dubladores do Rio a se aproximarem ao máximo da Versão Maga – e com as constantes redublagens que se seguiram depois, essa ainda é a versão que tem mais fãs.
Boa parte disso é mérito do próprio Marcelo Gastaldi, que não só gritava o clássicoSNOOOOOOOOOPYYYYYY na abertura, como também imprimiu um tom único de fragilidade e sensibilidade ao protagonista Charlie Brown, tornando-se até hoje a melhor interpretação do personagem no Brasil. O cara simplesmente criou a frase “Que puxa!”, marca registrada do Charlie Brown em língua portuguesa.
Dentre os demais do elenco Lucia Helena dublava Lucia (Lucy)Lira Rodrigues fazia o Lino (Linus)Carlos Seidl era o SchroederSandra Mara Azevedo fazia a Patty Pimentinha eLeda Figueiró era a voz da Isaura (Sally). Um show de interpretações da obra agridoce deCharlie Schultz.




OUTROS DESENHOS DA MAGA

O Pequeno Príncipe
Belíssima adaptação em anime do clássico livro de Saint-Exupéry. Passou incontáveis vezes na telinha do SBT, com Lira Rodrigues dublando o Pequeno PríncipeMarcos Landerfazendo a voz do Narrador/AviadorNelson Machado dublando Swift, a Ave Espacial eMartha Volpiani (dubladora de todos os personagens de Florinda Meza em TUDO que ela fez e chegou no Brasil) dando voz a preciosa Rosa do menino do Planeta B612.
Curiosamente o anime teve toda a dublagem Maga mantida quando foi lançado em DVD. Um dia eu queria voltar a falar mais dessa versão do Pequeno Príncipe, porque por mais que a animação seja tecnicamente cheia de falhas, o roteiro é muito diferenciado de outros desenhos voltados ao público infantil.



Saber Rider
Anime de ficção científica sobre uma espécie de patrulheiros ou xerifes com armaduras high-tech que enfrentavam ameaças no espaço sideral num futuro distante. Passava no programa da Mara Maravilha no SBT no fim dos anos 80.
Marcelo Gastaldi dava voz ao loirinho que era o personagem título, enquanto seus companheiros eram dublados por Carlos Laranjeira, Fabio Vilalonga e Cecilia Lemes (a segunda dubladora de todos os personagens da María Antonieta de Las Nieves nas séries CH). É mais um produto que foi todo redublado quando do lançamento em DVD no Brasil, tornando a versão Maga bem rara.



Inspetor Bugiganga
O desenho das aventuras do detetive ciborgue trapalhão que parecia um canivete suíço humano ao lado de sua inteligente sobrinha e seu heróico cachorro passou incansavelmente na programação do SBT na versão Maga até meados dos anos 90, ou seja, nem é tão antigo assim.
Impressionante como após tantas reprises hoje em dia é praticamente impossível de se achar essa dublagem, mesmo na internet. Luis Carlos de Moraes interpretava o protagonista do desenho nessa versão com o clássico bordão “Caramba!”



Ursinhos Carinhosos
Não vou tentar enganar ninguém. Esse desenho era chatinho, panfletário, vivia resvalando no moralismo e o fato deles morarem num lugar chamado Nuvem Rosa era meio estranho. Mas tinha pelo menos duas coisas muito boas na animação.
Uma foram os temas musicais da Versão Maga, seguramente responsável por muito do sucesso que os Ursinhos fizeram no Brasil, com direito ao Mario Lucio Freitas cantando a abertura e todas as músicas do episódio do Cancioneiro, que acabaram sendo redubladas assim como todos os outros capítulos. A outra coisa boa foi a dublagem do Flavio Dias pro Malvado, ironicamente o único bom personagem da história, que era espetacular.



Jem e as Hologramas
Esse desenho foi uma febre nos anos 80, talvez tinha um clima de anos 80 mesmo. A Jem era tipo um cruzamento da Barbie com a Madona naquela época. Denise Simonetto dublava a protagonista nos diálogos e Sarah Regina nas canções. Mario Lucio Freitas fez a direção musical e a adaptação, o que não deve ter sido fácil porque TODOS os episódios tinham algum clipe musical.




Favos de Mel
Um dos animes mais engraçados que eu já vi, sobre a pobre órfã atrapalhada Favo de Mel cuja gatinha Lili engoliu a jóia Sorriso do Amazonas, pertencente a Princesa Flora da Áustria, o que leva a uma verdadeira caçada por parte dos pretendentes malucos da princesa e do Ladrão Fênix. O melhor é que cada capítulo se passava em um país diferente.Denise Simonetto era Favo de Mel, Marcia Gomes a Princesa Flora e Orlando Vigianni o Fênix. Essa animação nunca mais foi reprisada desde os anos 80 e essa dublagem Maga éraríssima.





MONTY PHYTON – A VIDA DE BRIAN
Considerado por muitos como o melhor filme do grupo humorístico inglês, A Vida de Briancontava a história de um pobre coitado contemporâneo de Jesus Cristo que passou a vida sendo confundido com o Salvador da Humanidade. E com ele a Maga fez o que muito consideravam impossível. Dublou Monty Python, que muita gente considerava indublável e até intraduzível. E dublou muito bem!
Equiparável aos melhores trabalho do estúdio, como Chaves, Chapolin e Charlie Brown, este foi mais um filme redublado com o passar do tempo com uma nova versão brasileira muito inferior a da Maga. Destaque pra dublagem clássica: Marcelo Gastaldi cantando em meio aos crucificados “Olhe Sempre Pro Lado Bom da Vida”.




OUTROS FILMES DA MAGA
Quem cresceu nos 80, ou até o comecinho dos anos 90, viu alguns desses trabalhos no SBT na Sessão das Dez (aquela que sempre reprisava o filme após a primeira exibição) e no Cinema em Casa. A Maga dublou desde trashs como Alligator – O Jacaré Gigante, Palhaços Assassinos do Espaço Sideral e o primeiro A Hora do Pesadelo (com Freddy Krueger dublado por Mário Jorge Montini, a voz mais SINISTRA do personagem no Brasil) até longa-metragens que viraram clássicos como PapillonCampo dos SonhosO Nome da Rosa e Desafio a Corrupção.
Lembrando também de A Casa do Espanto 1, que foi dublado no Estúdio Elenco, mas como o protagonista era William Katt (o Super-Herói Americano), Gastaldi foi chamado e fez outro dos seus melhores trabalhos no melhor filme dessa franquia de terror. Pena que quase todos esses longa metragens também foram redublados e também é raríssimo de serem encontrados.


Destaque também pra alguns filmes que se tornaram cults nas Sessões da Tarde da Vida:


Tuff Turf – O Rebelde
Com Gastaldi dublando o protagonista Morgan Hiller (James Spader), um dos heróis da minha infância, que lutava contra a gangue local de um colégio ao se apaixoanr pela namorada do líder. Fez história na programação do SBT e nas fitas de VHS nas locadoras. Uma dublagem raríssima que eu pelo menos nunca encontrei nem na internet a não ser por esse trecho abaixo.



Elvira – a Rainha das Trevas
Comédia de humor negro estrelada pela sensual Cassandra Peterson (na voz de Patricia Scalvi) que foi exibida normalmente pela Rede Globo na Sessão da Tarde várias e várias vezes.



Supergirl – O Filme
Sim, é aquela versão pras aventuras da prima do Superman, Kara-Zor El (Helen Slaterdublada por Sandra Campos) que adotava a identidade secreta de Linda Lee ao chegar na Terra. A trama se passava no mesmo universo cinematográfico dos filmes com o Christopher Reeve.



O Passageiro do Futuro
Filme de ficção científica que ficou famoso na sua época sobre um humilde jardineiro (interpretado por Jeff Fahey e dublado por Orlando Vigianni) radicalmente transformado por uma bizarra experiência de realidade virtual comandada por um cientista (Pierce Brosnandublado por Leonardo Camilo).



CONCLUSÃO
Pra encerrar, aqui vemos Marcelo Gastaldi em pessoa dando adeus ao lado do também já falecido Mario Vilela, a voz de todos os personagens de Édgar Vivar nas séries clássicas de Chaves e Chapolin e dublador do Buba e do Gyodai em Changeman.
fonte: mdm